Domingo, 26 de Maio de 2013

FUGA ESPECTACULAR

UMA  FUGA   ESPECTACULAR

 

 

      Depois da Restauração do Estado Português em 1 de Dezembro de 1640, não foi fácil para os nacionais manterem a sua aspiração à independência do jugo castelhano. Várias são as referências que se encontram nos livros do Arquivo Camarário das dificuldades então sofridas pelo povo português, durante vários anos, até à paz estabelecida entre os dois reinos. Era a criação de impostos -como o imposto de selo e papel selado, as contribuições sobre os géneros de primeira necessidade, o imposto sobre o vinho e as carnes - para contribuir para o esforço de guerra que eram obrigados a sustentar com o antigo dominador. Era a constante invasão do território nacional que obrigava a recrutar homens para combater essas invasões. Era enfim a necessidade de fortificar ou tomar as praças e castelos que ora tinham tomado voz pelo Rei de Portugal, ora aquelas que por estarem sobre o comando de forças estrangeiras, ainda mantinham voz por Castela.

Pelas cartas que estão em livro próprio arquivadas no Arquivo Camarário, sabemos que praças como Viana, Caminha e Monção, entre outras, reclamavam o auxilio dos povos que tinham já sacudido o jugo castelhano. Por elas se toma conhecimento do que foram esses tempos heroicos em que o povo, o clero e a nobreza se uniram no amor da liberdade, do amor pátrio. Por uma dessas missivas tomamos conhecimento de que inimigo não queria abandonar a praça de Monção e sabemos que nessa luta foram presos alguns castelhanos que, possivelmente, por estarem mesmo na raia, foram transferidos, presos, para o Castelo de Braga.

Ora, é desse livro de correspondência recebida (Cartas Particulares)

1699-1702, que vamos transcrever, nos dá conta duma fuga audaciosa e rocambolesca levada a efeito no Castelo de Braga, por volta de 1649.

Vamos então à respectiva transcrição, um pouco longa, mas que tem o seu interesse e, principalmente, por nos vir dizer que mesmo nesses tempos já recuados - há 300 anos - também existia o mal de hoje - o suborno :

"Diz o Procurador da Cidade de Braga que ele há recebido uma certidão do teor do auto que se fez da fugida e rompimento do Castelo, que está em poder do escrivão Inácio Fernandes.

Pede assim mande ao escrivão a dita certidão, em modo que faça fé "

" Satisfazendo ao despacho acima do Senhor Doutor António da Silva Gaio, ouvidor e provedor nessa cidade de Braga e seu termo e geral dos coutos da Santa Sé dela pelos muito reverendos senhores do Cabido, sede vacante primaz, e demais autoridades certifico eu Inácio Fernandes, tabelião público judicial e notas nesta cidade pelo seu termo pelos reverendos senhores do Cabido que é verdade que em meu poder e cartório da devassa que mandou tirar e fazer o doutor ouvidor dos presos que fugiram do Castelo desta cidade do qual ( ? ) treslado é o seguinte

       “Ano do Nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo de mil seiscentos e quarenta e nove anos, aos vinte e três dias do mês de Maio do dito ano, nesta cidade de Braga, no Castelo dela, aonde foi vindo o doutor António da Silva Gaio, ouvidor e provedor nesta dita cidade e seu termo pelo Reverendo Cabido, etc. Outro sim Diogo Barbosa de Almeida, juiz ordinário nela pelo mesmo Cabido por lhes vir a notícia que fugiram os mais dos presos do dito Castelo que na torre dele estavam e indo o dito juiz diante para o dito Castelo a Matias Mendes Coelho carcereiro dele que ia fugindo e o fora seguindo e o prendera e o trouxera à dita cadeia e logo mandara tanger o sino do dito Castelo para que acudisse à cintura ( ? ) vindo ele doutor e eu tabelião entramos no dito Castelo e logo fomos ver a porta da torre a qual estava fechada e por cima estava um pedaço fora que fora tirado com muitos buracos de trado que foram miudamente dados com que se despergou a dita chave, digo o dito pedaço de porta pregado em uma chapa de ferro da dita porta dobrado para a banda de dentro que cabia a seu grosso ( ? ) por grosso que fosse e logo a porta da banda de dentro que é de grades se achava aberta de modo que não dava lugar a se abrir a porta de fora, por não estar fechada na porta de fora e logo doze barrotes em que a dita porta de dentro fechava essas não despregadas de maneira que afastadas por elas podia muito bem caber um homem.

      E logo indo acima ao segundo sobrado se acha um buraco com duas tábuas despregadas que cabia um homem muito a seu grosso e no sobrado, digo em o terceiro sobrado estava tábua levantada e a metade de outra quebrada de modo que por ela cabia qualquer homem e vindo ao terceiro junto ao muro para a banda da Alfandega para a parte onde se vende o sal e estava nessa ao dito muro ao alto uma escada de três tábuas pregadas umas nas outras com dezasseis tornos metidos . . .  ( no original está queimada a palavra que segue ) cada furo.

      Um pau metido que passava um palmo de parte a parte por onde mostrava subirem os presos que fugiram ao muro e logo em cima do muro estavam quatro lençóis atados uns nos outros e atados em uma ameia por onde desceram pelo dito muro abaixo para a alfandega e logo os presos que estavam na dita torre que  . . . cai o capitão galego dom Alonso Antelo preso que estava na gaiola no segundo sobrado e no terceiro sobrado o tenente Dom Francisco de Lanzada galego. E do primeiro sobrado o capitão galego Dom Domingos de la Bargio e o cabo de esquadra Domingos de Rego, presos que estavam por mandado do Governador das armas da praça de Monção e ainda mais fugiram Constantino Caires, natural desta cidade e Francisco Ribeiro, natural de Viana, presos que estavam acorren ( tados ) com grilhões nos pés e nas mãos culpados em a morte de um homem além de outros crimes que tinham . E assim mais Ismael Fernandes, sapateiro, natural desta cidade e Francisco Rodrigues, sapateiro presos por graves crimes e o dito Francisco Rodrigues, era natural desta cidade e assim mais  . . .  da Graça, desta dita cidade, preso que também estava por crimes e Pedro Gonçalves e Manuel Gonçalves ambos cunhados, naturais da freguesia de São João de Airão do termo da vila de  Guimarães e Matias negro escravo que era de Gaspar de Sousa Menezes, preso que estava por crime os quais todos fugiram do dito Castelo."

Atribuía o escrivão do auto e respectivo juiz que só com a ajuda de pessoas estranhas  é que se poderia ter dado esta arrojada fuga.mmmmmmmmmmmmmmmm Mais adiante, continuando com a transcrição, se pode ver como chegaram a essa conclusão. Assim :

". . . com ainda o favor que se lhes deu de fora como foi dar-lhes facas, armas e ganchos e tábuas, escadas e todo o mais aparelho que lhes foi necessário e que o carcereiro trazia na dita cadeia homens de quem se faria que fechassem os ditos presos os quais deram ainda ( ajuda ) e fazer-se a dita fuga, consentindo que para a dita cadeia   (reunissem  ? ) todos os aparelhos para nela fazer porque sem esta se não podia ela fazer porquanto a torre do dito Castelo de onde eles fugiram era muito forte e segura . . ."

Logo, para conseguir dentro da torre prisão tudo o necessário para levar a bom termo a fuga só, afirmam os autores do auto, subornando o pessoal encarregado da vigilância, e isso se depreende pela continuação da leitura da certidão do auto resultante do despacho :

". . . e se entende que os ditos presos peitariam a quem os apanhava com dinheiro, que lhes dariam porquanto os ditos presos galegos eram muito ricos e podiam fazer os mais dos ardis, eram homens muito facinorosos e tinham grandes crimes e era tanto assim que para eles se ela fazer não podia ser sem auxilio de quem os fechara porque entrouse a mais ( ? )  meteu-se muito tempo pelo muito que fizeram e trabalharam.

      E logo ele doutor ouvidor e juiz e eu tabelião vimos a dita torre e portas dela e buracos que estavam nos sobrados dela desse fé crer do modo de que dito fica de que ele doutor ouvidor juiz mandaram fazer este auto para por ele se tirar devassa do caso para fazerem cumprimento de nunca declarando que os ditos presos fugiram de noite e nesse dia, digo amanhecendo e fugido como dito fica. E declaro que também à dita Cadeia acudiu Filipe Jácome de Sousa, outrossim juiz ordinário nesta dita cidade que também acedeu ao fazer este auto e com presos que na dita Cadeia fugiram e consta do inventário que se fez e assinaram e eu Inácio Fernandes, tabelião o escrevi - António da Silva Gaio de Sousa Barbosa, o qual vai todo tresladado de verbo ad verbum ao qual em todo e folhado me reporto que fica em meu poder com o qual este consertei por mim tabelião e como fiscal a que comigo assinado e aos trinta e um dias do mês de Maio de mil novecentos e quarenta e nove anos e aqui assino do meu publico sinal que vale. Pague esta certidão com as três meias folhas e demais avença cento e quarenta reis de que recebeu quem a fez a quarta parte com papel trinta e cinco reis. Sobredito Inácio Fernandes, tabelião o fiz escrever e saber e assinei de meu sinal o que se segue e folhei. Inácio Fernandes . Conferido comigo Fernandes - e assinatura ilegível."

Por certo durante a guerra da Restauração o Castelo de Braga deve ter servido, por mais do que uma vez, até que foi assinada a paz entre Portugal e Espanha, para servir de prisão a alguns militares castelhanos, mas por mais que folheasse não encontrei qualquer outra referência a prisões de soldados, nem tampouco me parece ter-se dado nova fuga espectacular como a que transcrevi. O que encontrei, como de resto o disse no princípio, foi o pedido de auxílio, o que nos atesta que Braga deve ter tido papel preponderante na Guerra da Restauração.

 

Braga, Março de 1995

 

                   

                       

                             LUIS COSTA                        

 

 

 

 

publicado por Varziano às 14:36
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